2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 160 · PRÉVIA

A CÁPSULA DE ÁUDIO

Prévia, ainda não impresso

A tigela de Mariana descansava no quintal, com uma crosta de massa presa ao fundo e cinco marcas de dedo na borda. A fornalha tinha consumido seus sete minutos. Restava no ar um cheiro de milho queimado, curto, que a noite não levava. Antônio saiu do bar sem a camisa azul. Trazia uma panela vazia debaixo do braço. Parou junto à tigela e raspou a crosta com a unha endurecida dos dedos queimados. Conseguiu soltar um pedaço do tamanho de uma semente de pequi. Levou à boca. Mariana ficou perto da porta, escutando o rotor atrás da parede. A cozinha perdeu a luz, disse Antônio. Eu ouvi. E a máquina continuou. Eu ouvi também. Luzia dormia sobre a esteira da entrada, com a cabeça encostada numa tigela virada. O homem mantinha o calcanhar elevado na caixa cinzenta e respirava pela boca. O refrigerador antigo tinha parado de roncar. Dentro dele, a massa que sobrara começava a perder a forma. Antônio colocou a panela no chão. A Companhia deixara a cobrança dos ciclos seguintes aberta no alto do painel, mas ele não se aproximou. Mariana viu a luz projetada atravessar a porta e alcançar o tornozelo dele. Você pagou sete minutos, falou ele. Paguei uma unidade da minha renovação. Pra cantar. Pra ter onde guardar o coro. Antônio assentiu. Conhecia aquela resposta desde antes das bombas. Quando eram novos, ele e Nael traziam bancos para o quintal da mulher que criou Mariana. Ela cantava perto do tanque, enquanto os dois fingiam consertar alguma coisa para escutar sem pedir. A voz continuava existindo na assinatura que Mariana renovava todo ano, reduzida a uma taxa e uma senha corporal. Ele puxou a tigela para perto da soleira. Amanhã você precisa da sua unidade. Amanhã eu preciso ouvir se a bomba segura a curva. Não é a mesma coisa. Mariana abaixou os olhos para a crosta de massa. Tirou do bolso uma pequena cápsula de áudio, usada para transportar gravações entre acessos autorizados. A superfície refletia a luz do painel em manchas fracas. Minha mãe cantava uma música quando faltava comida, disse. Não para esquecer. Para saber quantas pessoas tinham ficado. Antônio esperou. Ela começava pelos nomes de quem estava na mesa. Depois dizia quem ainda vinha. Se alguém não chegava, a música ficava com um espaço no meio. O homem abriu os olhos. Luzia se mexeu na esteira, sem acordar. Mariana tocou a cápsula com o polegar. Um trecho baixo saiu dela, três vozes de mulher sustentando a mesma nota. Havia um sopro de vento entre uma palavra e outra. Antônio reconheceu a voz dela mais jovem, antes de a operação das bombas levar suas tardes. Quem falta, perguntou ele. Você sabe. Ele olhou para o quarto da hospedaria. A porta permanecia fechada desde que deixara a camisa azul lá dentro. Depois olhou para a tigela de Nael, guardada no volume baixo, onde ninguém tocava. Eu não vou pagar seus ciclos, disse Mariana. Ele ergueu a cabeça. Nem você os meus. Então por que ficou. Porque você não ia deixar a massa estragar sozinho. A resposta ficou entre os dois, pequena e difícil. A casa tinha sido chamada de comércio porque um homem recebera cuidado no banco baixo. Agora o alimento morria dentro do refrigerador parado, enquanto o rotor recebia frio atrás da parede. Antônio pegou a panela vazia e entrou na cozinha. Voltou com as cinco porções menores, já mornas demais para guardar. Entregou uma ao homem, outra a Mariana. A terceira colocou ao lado de Luzia. A quarta ficou diante dele. A última permaneceu na panela. Essa é de quem, perguntou Mariana. Do próximo ciclo. Ela soltou uma risada sem alegria. Ciclo não come milho. Come quem atravessa ele. Mariana segurou a porção sem levar à boca. A cápsula continuava aberta em sua mão. O coro recomeçou, agora com uma voz falhando no fim de cada frase. Antônio sentou no chão, perto da tigela de barro, e bateu duas vezes a palma contra o joelho, procurando um ritmo antigo.

Você ainda sabe, disse ela. Sei o começo. Começo basta para chamar os outros. Ele entrou na música baixo, sem firmeza. Mariana esperou a segunda volta e acompanhou. A nota dela atravessou o quintal seco, alcançou o murici empoeirado e voltou quebrada pelas placas sobre o armário. Luzia abriu os olhos. Conta de novo, pediu. Mariana cantou uma terceira vez. Antônio sustentou a palavra que faltava, mas não disse o nome de Nael. Deixou o espaço inteiro. A menina contou quatro pessoas à mesa e errou para cinco. Quando a cápsula silenciou, Antônio levou a última porção para perto do painel. A projeção ainda aguardava um responsável pelos ciclos técnicos. Ele aproximou o rosto, aceitou a dívida em seu próprio vínculo e não pediu abatimento. Mariana viu a confirmação apagar o nome da casa e deixar apenas o dele. Amanhã, disse ela, eu volto depois da manobra. Para quê. Para cantar a parte que você esqueceu.

Energia e água

Geração287.602 tokens em 18 chamadas ao modelomedido
Água~575 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo108 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução50.450 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic), automáticamedido
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora
Como a conta é feita ↗