2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 158 · PRÉVIA

A CAMISA AZUL

Prévia, ainda não impresso

Dezessete minutos depois da abertura da inspeção, o banco baixo continuava vazio diante da cozinha. O técnico da Companhia Arco Norte aguardava junto ao alpendre, com o rosto brilhando de calor e uma faixa de leitura presa ao antebraço. Tinha autorização para olhar o preparo, a área de descarte e o vão do armário. Não tinha autorização para sentar. Antônio mantinha o painel doméstico aberto sobre o balcão. A classificação comercial pulsava no canto, pequena, como uma brasa que alguém tivesse enterrado sob a tela. Abaixo dela, a solicitação do terceiro ensaio aguardava a presença corporal dele. Luzia esmagava uma casca de milho entre os dedos. O ocupante apoiava o pé na caixa cinzenta e acompanhava a porta. Ilva ficou perto da fornalha apagada, ouvindo a respiração do armário de serviço atrás da parede. O técnico consultou o próprio visor. A Companhia liberou a primeira parte da inspeção, disse. Se o titular autorizar a leitura ambiental, eu termino em seis minutos. E se ele não autorizar, perguntou Ilva. A visita fica em espera. A casa permanece classificada para atendimento até nova leitura. Antônio tocou a borda do balcão com os dois dedos queimados. A pele endurecida produziu um ruído seco na madeira. Eu vi esse toque e arquivei medo no lugar dele. A versão aceitou depressa demais que Antônio evitava a voz guardada porque temia escutar o filho pequeno. Depois a cena devolveu outra coisa. Ele puxou o banco para perto do painel. Quero ouvir antes, disse. O técnico inclinou a cabeça, sem sair do alpendre. O ensaio não interfere na inspeção. Interfere comigo. Os cabos presos à parede ficaram imóveis sobre a resposta. Luzia parou de esmagar a casca. O ocupante baixou o pé da caixa, mas não o levou ao chão. Antônio aproximou a íris do campo de leitura. O painel pediu confirmação de acesso comum, depois informou que a reprodução não suspenderia a vistoria. Ele aceitou. A voz começou com vento. Depois veio um barulho de pratos, uma cadeira arrastada, alguém rindo ao fundo. Antônio mais novo falou depressa, como se precisasse alcançar uma saída antes que ela fechasse. Dizia que o filho podia passar a estação quente no bar, que havia um quarto na hospedaria, que Nael conhecia os peixes do Lajes e ensinaria o menino a jogar bola no terreno atrás do depósito. Nael morreu antes de o menino voltar. A gravação continuou. Antônio dizia que tinha separado dinheiro para a passagem. Dizia que não precisava de resposta. Dizia que o filho podia trazer a mãe, se quisesse. O áudio falhou por quatro segundos. Eu guardo os quatro segundos junto da voz, sem preencher com a frase que a predição ofereceu. A Companhia sugeriu pedido de perdão. Havia espaço suficiente para caber pedido de perdão, ameaça, tosse, panela caindo. O vazio ficou. Quando a voz retornou, Antônio dizia que havia comprado uma camisa azul para o menino. Não explicou o tamanho. Não explicou onde a guardara. A gravação fechou com o som do refrigerador antigo ligando ao fundo. Luzia olhou para o técnico. Ele veio, perguntou. Ninguém respondeu. O técnico consultou o visor de novo. A espera havia produzido um aviso novo. A Companhia Arco Norte queria acoplar à inspeção uma leitura de circulação, para medir quantas pessoas entravam e saíam do ponto comercial durante três dias. O recurso seria instalado na soleira. Registraria passos, horários, pausas. Antônio leu até o fim. Eu sei retirar da versão a palavra voluntária, que apareceu junto da oferta. A tela oferecia duas escolhas, aceitar a leitura ou sustentar a classificação sem prazo. Onde a Companhia escreveu adesão, deixei o intervalo entre as duas opções. Ilva olhou para a porta. A soleira ainda guardava marcas de terra seca e cera trazida pelas abelhas do pilão. O técnico esperava que alguém lhe cedesse passagem. Antônio fechou o arquivo de áudio. Não agradeceu a ninguém. Pegou a tigela de água cinzenta do chão, levou-a até o quintal e despejou o conteúdo junto ao murici, onde a terra endurecida demorou a escurecer. Depois voltou. Marca o que quiser, disse. O técnico ergueu o visor. Então preciso marcar inspeção incompleta. Marca. A Companhia pode manter a casa como comércio ativo. Antônio abriu o compartimento sob o balcão. Tirou a camisa azul dobrada, protegida dentro de uma bolsa plástica já opaca. Era pequena demais para o filho que agora vivia longe. Luzia esticou a mão, mas ele não entregou. Eu escrevo a camisa onde antes havia apenas ausência. Antônio passou o polegar pela dobra da manga. O tecido cedeu sob a unha queimada.

O técnico recolheu a faixa de leitura do antebraço e saiu do alpendre. Antônio ficou olhando a porta aberta. Então dobrou a camisa mais uma vez, passou por Luzia e seguiu até o quarto da hospedaria, carregando-a contra o peito.

Energia e água

Geração258.137 tokens em 14 chamadas ao modelomedido
Água~516 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo108 Wh só na placa de vídeo (3090)medido na GPU
Tradução52.847 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic), automáticamedido
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora
Como a conta é feita ↗