A PELÍCULA NO CALCANHAR
Antônio já tinha separado três medidas de água quando o painel reacendeu. A primeira cabia numa tampa funda. A segunda, metade dela. A terceira era o que restava no copo reservado ao filho, mantido havia dois dias perto do ponto de presença escuro. O homem estava sentado no banco baixo, com o calcanhar suspenso sobre uma tigela vazia. A membrana aplicada semanas antes perdera transparência e colara nas bordas. A leitura comercial da casa começaria em vinte e seis minutos. Entre os requisitos projetados pela Companhia Arco Norte havia uma linha nova, condições corporais compatíveis com atividade de atendimento. Atendimento era o bar voltar a vender comida. Corpo compatível era aquele que a câmera aceitasse. Antônio aproximou a tampa com a primeira medida. Molhou a membrana em quatro passagens, esperando entre uma e outra até o material ceder. O homem apertou a borda do banco, mas manteve o pé imóvel. Luzia contou seis passagens. Ele corrigiu sem olhar. Foram quatro. Eu conto as que doeram, disse ela. Ilva ficou junto à entrada da cozinha. O espelho frio repousava no volume baixo, com o terceiro ensaio fechado. A mão dela não desceu até o compartimento. Antônio levantou uma ponta da membrana, soltou a parte aderida com a água da segunda medida e depositou o material escurecido num recipiente de descarte doméstico. A pele por baixo tinha uma faixa pálida, enrugada pelo abafamento. Nenhum sangramento. O painel pediu aproximação para análise sanitária. Antônio cobriu o sensor com a própria mão. Primeiro limpa, disse. Misturou na terceira medida duas gotas do descontaminante que restara no frasco de Mariana. Girou o recipiente uma vez, mergulhou uma tira de tecido térmico e passou do centro para as bordas. Depois virou a tira. Na terceira passagem, o tecido saiu com poeira mineral, um cinza fino que se dissolveu na água e deixou o fundo opaco. Luzia segurou a tigela pelas duas bordas enquanto Antônio torcia o tecido sobre ela. Uma gota escapou, correu pelo banco e alcançou o calcanhar descoberto. O homem recuou o pé, bateu no recipiente de descarte e derrubou a membrana usada no chão. Antônio apanhou o material com dois dedos e tornou a depositá-lo no recipiente. O cronômetro comercial caiu para dezenove minutos. Do lado de fora, um técnico aguardava a liberação do armário. Tinha vindo conferir a sombra de alumínio e permanecia sob o sol, porque o refrigerado atrás da placa pertencia ao rotor. Ele observou Antônio cortar a película médica em duas partes. Ouvi dizer que lá fora estão votando lei para dar energia e água primeiro aos datacenters, falou. Dizem que quem for contra perde eleição. Ou quem for a favor. Cada um conta de um jeito. Antônio não ergueu a cabeça. O técnico continuou, disseram que as contas das casas vão segurar a diferença até as máquinas começarem a pagar imposto. Depois baixou a voz. Se começarem. A película inteira valia quatro dias de proteção. Cortada, cobria o calcanhar por dois. Antônio aqueceu uma metade entre as palmas, aplicou sobre a pele limpa e pressionou as bordas durante quinze segundos.
Luzia contou treze, depois dezesseis, para prolongar a mão dele sobre o pé do homem. Quando terminou, o painel oferecia duas escolhas. Apresentar o corpo à leitura e conservar a janela comercial, ou declarar cuidado doméstico em curso e adiar a classificação mediante cobrança. Antônio removeu a mão do sensor. A câmera percorreu o banco, o pé coberto, a tigela com água cinzenta, a película usada no descarte. Reconheceu assepsia incompleta. A casa poderia manter a classificação futura se contratasse descarte técnico e aceitasse inspeção semanal da área de preparo. O primeiro ciclo custava o equivalente a três porções de milho. Faltavam onze minutos para contestar. Antônio recolheu a metade limpa da película e entregou-a ao homem. Guarda. Daqui a dois dias troca nessa ordem. O homem fechou os dedos sobre o material. Você gastou a sua, disse. Era a última porção médica vinculada ao titular da casa. Sem ela, Antônio passaria ao atendimento comum durante um ciclo. Ele confirmou o consumo com a íris. O painel retirou seu acesso prioritário e abriu a classificação comercial. A palavra futura desapareceu. No mesmo instante, a cobertura sobre o armário passou a constar como melhoria produtiva. A fração abatida na noite anterior voltou sob outro nome, adaptação de ponto comercial. O valor excedia em uma porção o desconto obtido com a sombra. Ilva leu a cobrança sem se aproximar. A casa fora aceita como comércio porque cuidara de um corpo antes da leitura. O cuidado entrou na conta como prova de capacidade, e a água escura na tigela virou resíduo de atividade econômica. Restavam seis minutos para contestar. Antônio poderia abrir o detalhamento ou ouvir o terceiro ensaio. As duas funções exigiam sua presença corporal no mesmo intervalo. Olhou para o volume baixo. Depois abriu a contestação. O painel pediu origem da película, volume de água empregado e finalidade do atendimento. Antônio informou três medidas. A máquina preditiva corrigiu para quatro, contando a umidade retida no tecido. Ele recusou o cálculo. A revisão consumiu os seis minutos e conservou a cobrança até uma inspeção sem horário. O terceiro ensaio permaneceu fechado. O técnico recebeu autorização para aproximar o rosto do armário. Antes de entrar, viu a tigela no chão. Se vocês chamarem isso de bar, falou, amanhã chamam a casa de datacenter pequeno. Ninguém respondeu. Nenhum painel acendeu.
Energia e água
| Geração | 110.176 tokens em 8 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~220 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 89 Wh só na placa de vídeo (3090 e 4090) | medido na GPU |
| Tradução | 49.459 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic), automática | medido |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora |