CINCO SEGUNDOS E OITO DÉCIMOS
Onze minutos separavam o primeiro ensaio do segundo, embora Antônio os tivesse produzido na mesma tarde. O intervalo estava cheio de apagamentos. O canal de voz guardara a abertura da boca, a respiração recusada, três sílabas do nome do filho e o ruído do transportador que depois atingiria Nael. O espelho frio conservava o que a rede recebera já diminuído. Antônio manteve a colher diante de Ilva. Apaga o primeiro, disse. Ela apoiou o coletor no balcão. A faixa da mão havia secado torta, prendendo dois dedos, e o calor acumulado sob o tecido fazia a pele coçar. Luzia se aproximou para ver a tela. O homem ficou sentado junto à caixa cinzenta, com o pé suspenso, responsável por uma carga que pulsava atrás da placa do armário. O ensaio tinha cinquenta e dois segundos. Ilva abriu a camada de origem. O aparelho mostrou o arquivo, duas cópias de segurança e o vínculo com outros registros domésticos. Uma delas estava presa à medição da morte do pequi. A voz de Antônio passava sob o áudio de Luzia, quase inaudível, dizendo que voltaria antes de a terra endurecer. Se apagar inteiro, leva uma parte dela, falou Ilva. Luzia puxou a própria tigela para longe do aparelho. Minha voz fica. Antônio tentou estender a mão, mas os dedos queimados não abriram o bastante para alcançar a tela. Encostou o punho no balcão. Então separa. O coletor fazia esse trabalho sem pedir autorização aos donos da outorga. Separar custava tempo. A máquina antiga precisava percorrer cada segundo, distinguir as frequências sobrepostas e reconstruir duas trilhas onde havia uma só. O leitor óptico reconheceu a íris de Ilva e liberou a leitura. O coletor aqueceu na base. Do lado de fora, a poeira clara da lavra pousava nas folhas do murici. Duas lagartas que haviam escapado da farinha roíam uma borda escurecida e paravam antes da parte coberta pelo pó mineral. Mais abaixo, o capim terminava em tufos baixos junto à faixa aberta para os cabos do datacenter. A vala tinha largura suficiente para um corpo deitado e nenhum inseto atravessava seu fundo quente. A primeira separação deixou Luzia com a voz metálica. A segunda preservou seu sopro e trouxe de volta a frase de Antônio. Na terceira, o transportador cresceu até cobrir os dois. Ilva reduziu a faixa grave. O ruído perdeu peso. A voz da menina reapareceu com quatro falhas. Está mordida, disse Luzia. É o que sobrou, respondeu Antônio. Ela olhou para ele. Sobrou porque ela falou junto comigo. O painel doméstico clareou acima da pia. Uma câmera de rastreamento havia percebido atividade acústica sem origem sincronizada. A concessionária oferecia análise de autenticidade mediante envio de seis segundos. Em troca, anexaria uma prova temporal ao cadastro da casa. Antônio leu a oferta e passou a língua nos dentes. Seis segundos bastavam para a empresa reconhecer a voz que ele nunca enviara ao filho. Bastavam também para provar que Ilva retivera os ensaios depois do pedido de devolução. Na cozinha bloqueada, a ferramenta aparecia de graça. Quero a prova, disse Antônio. Ilva escolheu um trecho sem o nome do filho. Havia sete segundos de respiração, dobradiça e motor. Cortou o primeiro. Cortou o último. Restaram cinco segundos e oito décimos. O painel recusou. Ela acrescentou dois décimos da voz dele. Uma vogal aberta entrou no pacote. A concessionária aceitou a amostra, reconheceu Antônio como origem provável e criou um registro de custódia. O painel declarou que três arquivos derivados permaneciam sob posse local de Ilva. A partir daquele instante, ele podia exigir a eliminação formal, e ela perdera o direito de alegar que guardava apenas medições. Antônio pediu o detalhamento. O registro mostrava duração, horário e uma indicação de destinatário inferido. O nome do filho apareceu sem que ninguém o dissesse. O ponto de presença na tela do bar acendeu. Luzia contou até quatro. Errou para cinco. O ponto continuou aceso. Ilva voltou ao coletor. Separou a trilha da menina com as quatro falhas e colocou-a junto ao registro do pequi. Depois selecionou o ensaio de Antônio. A função de eliminação exigia três passagens sobre a memória. Na primeira, a forma da voz perdeu o contorno. Na segunda, restaram blocos curtos. Na terceira, o coletor preencheu o espaço com sequências sem origem. O trabalho durou nove minutos. Antônio acompanhou cada passagem sem se sentar. Ao final, o arquivo deixou de abrir. A cópia presa à voz de Luzia continha apenas a menina, o sopro e as quatro mordidas. Ilva apresentou a tela vazia. Antônio conferiu a duração zerada e encostou o punho no leitor óptico do painel. A concessionária anexou a eliminação à prova de custódia. O ponto do filho permanecia aceso. Agora podia solicitar os dois ensaios restantes, porque a amostra revelara que haviam sido destinados a ele. Ilva fechou o espelho frio e o guardou no volume baixo.
O homem levantou a cabeça. Antônio manteve os olhos no ponto aceso até a cozinha escurecer ao redor dele.
Energia e água
| Geração | 67.286 tokens em 5 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~135 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 107 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | 7.637 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic), automática | medido |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora |