LAGARTAS DO MURICI
As lagartas começaram a cair do murici antes que Luzia terminasse de dividir a farinha. Vinham enroladas nas folhas secas, verdes ainda no meio do corpo, e abriam-se sobre a placa rasa com uma lentidão de dedos cansados. A menina afastou a primeira com um graveto. Outra tocou a massa. Depois vieram sete, nove, muitas, descendo pelo galho inclinado que alcançava o alpendre. Ilva puxou a placa para dentro da cozinha. O ocupante ergueu-se da caixa cinzenta, apoiado na perna boa, e segurou a divisória para não esbarrar nela. Luzia ficou no quintal, olhando as lagartas atravessarem a esteira de buriti rumo à sombra da casa. Elas estão procurando o quê, perguntou. Folha que ainda presta, disse Ilva. O murici tinha perdido metade da copa desde que as torres do datacenter passaram a puxar água do mesmo chão das raízes. As folhas novas vinham pequenas, com bordas castanhas, e as lagartas comiam o pouco que nascia antes de procurar as frestas da madeira. Luzia trouxe uma tigela vazia e recolheu as que alcançavam a soleira. Não põe na cozinha, falou Ilva. Elas vão morrer no sol. A menina levou a tigela até a faixa de terra atrás do depósito, onde restava um tufo de capim áspero. Depositou as lagartas ali. Voltou duas vezes. Na terceira, encontrou uma presa na dobra da barra da roupa do ocupante. Ele a retirou com a ponta de uma colher e a deixou na tigela sem dizer nada. O painel doméstico acendeu acima da pia. A consulta de Antônio tinha alcançado a última janela. Antes que Ilva chegasse perto, uma voz parecida com a dele saiu baixa do terminal. Declaração sugerida. Titular ausente. Dois moradores reconhecidos. Uma presença condicional. Luzia parou com a tigela junto ao peito. Quem é condicional, perguntou. A projeção abriu três contornos. Ilva. Luzia. O ocupante, reduzido a uma linha sem nome. A inteligência artificial que organizava as consultas da Companhia Arco Norte tinha aprendido a responder com restos de voz dos ausentes. Antônio não falara. Mesmo assim, sua boca apareceu em desenho de luz sobre a parede. Ilva fechou a projeção com o antebraço. O ocupante olhou para a farinha contaminada na placa. Havia pequenos rastros claros na massa, trilhas que ninguém conseguiria separar. Pegou o recipiente de viagem, raspou o fundo com a colher e encontrou uma camada de angu endurecido. Dá para três, disse. Para dois e um pedaço, corrigiu Luzia. Ele dividiu o angu em partes desiguais. A maior ficou perto dela. Ilva recebeu a menor e não reclamou.
O calor da cozinha vinha do telhado, dos dutos presos à fachada, da refrigeração do armário de serviço que trabalhava para as máquinas. O ocupante passou a colher por água, limpou-a no pano seco e entregou-a a Luzia. Você vai deixar ele falar por Antônio, perguntou ela. Ilva mastigou devagar. A mão enfaixada repousava aberta sobre a mesa. Se eu aceitar, ele entra como morador. Se eu recusar, a casa perde a janela. Luzia olhou para o ocupante. Ele tinha a boca fechada, a colher pousada no prato, como se aguardasse uma ordem que não vinha. Lá fora, as lagartas desciam do murici em fios curtos, procurando outra folha antes que o galho inteiro ficasse nu.
Energia e água
| Geração | 137.491 tokens em 8 chamadas ao modelo | medido |
|---|---|---|
| Água | ~275 ml na geração, 2 ml por mil tokens | estimado |
| Vídeo | 108 Wh só na placa de vídeo (3090) | medido na GPU |
| Tradução | 48.871 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic), automática | medido |
| Impressão | impressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora |