2047: Arquivos do depois de antes
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CAPÍTULO 144 · PRÉVIA

A PELÍCULA NO COLO

Prévia, ainda não impresso

A haste emitiu um bip curto quando a primeira luz tocou a esteira. A enviada acordou no degrau, com a cabeça caída sobre o ombro esquerdo e a mão enfaixada apertada contra a barriga. Durante a noite, a linha azul atravessara as fibras de buriti, sumira sob a poeira e voltara em pontos separados, como se procurasse ar entre os corpos. Luzia estava acordada havia tempo. Contava os quadrados luminosos que subiam pela esteira, errava um, voltava ao começo. Ilva permanecia sentada junto à porta, as costas apoiadas na madeira. O ocupante dormira pouco no corredor, com a perna boa dobrada e o sapato ainda preso ao pé ferido. Quando mexeu o corpo, a sola raspou no chão e a enviada abriu os olhos. A medição concluiu o intervalo, disse ela. A haste projetou três zonas sobre o quintal. Passagem técnica. Uso doméstico temporário. Área sem classificação. A esteira ficou dentro da segunda. A cozinha apareceu dividida ao meio. O lugar onde o ocupante guardava a bolsa caiu na faixa sem classificação. Luzia se levantou antes que a mulher baixasse o braço. Pegou a película refletiva que mantinha enrolada perto da divisória e saiu para o alpendre. A película tinha manchas de poeira e uma dobra rasgada perto da ponta. Ela a abriu sobre a cabeça, procurando o céu entre os fios e os dutos presos à fachada. Vai passar hoje, falou. Quem, perguntou a enviada. O drone do recenseamento. Ele vem pela rua alta, desce perto do bar e pega o telhado inteiro. Luzia esticou a película até ela vibrar. Se eu aparecer, a casa aparece também. Ilva olhou para a cobertura baixa. As telhas antigas tinham uma faixa escura de umidade junto ao encontro da parede, onde o vapor das torres se prendia antes de subir. O telhado aguentaria o peso de uma criança, não a curiosidade de um adulto atrás dela. Desce, disse. Luzia já tinha apoiado o pé no banco. O ocupante saiu do corredor, segurando a divisória para firmar o corpo. A dor no calcanhar trouxe um tremor rápido à boca dele. Não pediu ajuda. Só ficou entre a menina e o banco. A enviada consultou a haste. A Companhia Arco Norte precisava fechar a faixa antes da troca de turno. Se marcasse a esteira como presença doméstica contínua, a linha proposta teria de contornar a cozinha e perderia acesso direto ao armário de serviço. Se declarasse uso temporário, a operação poderia tratar o quintal como passagem disponível depois de três ciclos. A mulher virou o antebraço. O corte sob a faixa tinha deixado uma mancha seca no tecido. A casa precisa provar uso contínuo, falou. Com titular presente. Antônio está fora, disse Ilva. A ausência não suspende a leitura. Ela tocou na primeira zona azul. A projeção se abriu em pequenos dados. Havia uma oferta de permanência preferencial para os moradores e uma cobrança futura por ocupação territorial. A concessionária cobraria a água, a Companhia Arco Norte cobraria o espaço, cada uma com sua palavra limpa para o mesmo chão. Luzia desceu do banco. Foi até a cozinha e voltou com o pano que cobria a farinha. Restava no tecido uma camada fina, seca, presa nas dobras. Ela sacudiu o pano sobre a esteira. O pó caiu em linha torta, misturando-se à luz. Vai comer aí, perguntou a enviada. Ela vai, respondeu o ocupante. Ilva olhou para ele. A resposta ficara no ar antes que ela pudesse impedir. O vínculo dele já custava três unidades de preparo que a casa não tinha como produzir. A presença dele no quintal serviria à medição, mas a Companhia Arco Norte também poderia incluí-lo como ocupante territorial e puxar a cobrança para o corpo dele. A enviada aproximou a haste da farinha no chão. O aparelho reconheceu matéria orgânica, uso alimentar, superfície compartilhada. Depois pediu confirmação corporal de um responsável. O ocupante estendeu a mão. Ilva segurou o punho dele. A mão dela ainda tinha a faixa suja entre os dedos. Você já está preso à água, disse. Ele soltou o braço devagar. A luz azul batia no rosto dele e deixava as olheiras em duas partes. Traga a caixa cinzenta. Luzia recolheu o pano vazio. Não queria que a conversa crescesse. Enrolou a película refletiva no braço e foi para a beira do alpendre, onde a linha atravessava a sombra do murici. Eu sento também, falou. A enviada observou os dois. A haste mostrava o tempo restante para a troca de turno. Onze minutos. O registro de continuidade precisava de mais um corpo adulto ou de uma autorização do titular ausente. A casa tinha um adulto disponível, mas ela sabia que Ilva não podia autenticar nada durante a custódia. O ocupante puxou a caixa cinzenta do corredor até a porta e a virou de lado. Sentou nela com cuidado, deixando o pé ferido suspenso. Luzia acomodou-se no chão, a película no colo. Ilva trouxe o banco baixo e colocou-o junto à esteira, sem se sentar. A enviada fez a leitura dos três lugares. O aparelho desenhou pontos brancos sobre cada corpo. Quando chegou ao banco vazio, abriu uma pergunta. Ocupação interrompida. A mulher esperou. Ilva ficou olhando o banco. Havia espaço para ela. Havia também a notificação que a tornaria parte da integração hídrica se encostasse a palma na confirmação. A Companhia Arco Norte chamaria aquilo de adesão de moradora. A concessionária cobraria depois como ajuste de estabilidade. Luzia bateu duas vezes na esteira com a película enrolada. O som seco chamou a atenção de Ilva. O banco ainda está vazio, disse a menina. A enviada ergueu a haste. Sem confirmação, o uso fica irregular. Posso classificar como ocupação provisória e encaminhar a revisão. Isso segura a faixa, perguntou o ocupante. Segura por três ciclos. Depois a Companhia pede presença do titular ou transferência de responsabilidade. Ilva sentou no banco. Não tocou no campo projetado.

A haste registrou a mudança de peso, a distância entre os corpos, a farinha sobre a esteira, a permanência da criança. A enviada escolheu ocupação provisória. A linha azul recuou da cozinha e permaneceu presa ao quintal, contornando a sombra do murici. No painel doméstico surgiu uma nova exigência. Antônio deveria comparecer para declarar quem morava na casa antes do fim do terceiro ciclo. Luzia levantou a película acima da cabeça e correu para o fundo do quintal, procurando uma subida para o telhado.

Energia e água

Geração219.862 tokens em 15 chamadas ao modelomedido
Água~440 ml na geração, 2 ml por mil tokensestimado
Vídeo89 Wh só na placa de vídeo (3090 e 4090)medido na GPU
Tradução54.160 tokens na versão em inglês, Claude (Anthropic), automáticamedido
Impressãoimpressão, máquina e papel entram quando a página sair da impressora
Como a conta é feita ↗